Por Marco Severini — Em um pronunciamento que redesenha, com linguagem direta, os contornos da política externa norte-americana no hemisfério, o presidente Trump qualificou a operação que levou à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro como uma atualização da Doutrina Monroe de 1823. Segundo o presidente, os Estados Unidos “governarão o país” até que seja possível realizar uma “transição segura, adequada e judiciosa”. Em tom enfático, acrescentou que “a Doutrina Monroe é uma coisa importante, mas a superamos muito, realmente muito. Agora a chamam o documento Donroe“, fundindo, simbolicamente, sua assinatura pessoal ao arcabouço doutrinário.
Ao afirmar que “o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”, Trump recupera, de modo explícito, o princípio central da Doutrina original: o continente americano como esfera distinta, vetada a novas colonizações e a intromissões europeias, e passível de tutela por parte de Washington. Históricamente sintetizada no slogan “a América para os americanos”, essa visão consagrou a divisão do globo em esferas de influência controladas por potências hegemônicas.
Mas é preciso recordar como a doutrina evoluiu ao longo do tempo: em 1904, o presidente Theodore Roosevelt formalizou o chamado Corolário Roosevelt, afirmando o direito — e a responsabilidade, nas palavras da administração da época — dos EUA de intervir nos países latino-americanos para prevenir ingerências europeias, especialmente quando ameaças financeiras ou de instabilidade colocavam em risco interesses norte-americanos. O corolário emergiu como resposta direta à crise venezuelana de 1902–1903, quando credores europeus pressionaram Caracas por dívidas não pagas.
Desde então, a Doutrina Monroe e seu corolário foram empregados como justificativa para diversas intervenções: da República Dominicana ao Haiti e à Nicarágua, Washington interveio com o argumento de preservar a estabilidade hemisférica e seus próprios interesses estratégicos. Nas décadas seguintes, a tônica oscilou entre diplomacia, pressão econômica e ações militares diretas.
No final do século XX, a política norte-americana na região assumiu contornos particularmente enérgicos. Nos anos 1980, o presidente Ronald Reagan apoiou os Contras na Nicarágua contra o governo sandinista, num contexto que desembocou no notório escândalo Irã-Contras. Reagan também deu suporte a regimes militares em El Salvador e Guatemala, mesmo diante de acusações de graves violações de direitos humanos. Em dezembro de 1989, o presidente George H. W. Bush acionou novamente o poder militar ao ordenar a invasão do Panamá para capturar o general Manuel Noriega, acusado de tráfico de drogas — um episódio que ilustrou, com clareza, o uso direto da força como instrumento de política hemisférica.
O que representa, então, a retórica atual? A invocação de um suposto corolário Trump é menos uma inovação jurídica do que uma declaração estratégica: é um movimento decisivo no tabuleiro que reafirma o papel de árbitro regional dos EUA. Em termos de arquitetura internacional, trata-se de um reposicionamento que visa dissuadir atores externos de qualquer interferência nas Américas, mas que também recalibra expectativas dos próprios países latino-americanos quanto à sua soberania prática.
Como analista, vejo esse gesto político como parte de um redesenho das fronteiras invisíveis da influência: ao inserir seu nome — simbolicamente — na tradição monroísta, Trump tenta transformar um legado do século XIX em um mandato contemporâneo de ação. A jogada é clara: criar uma nova norma hemisférica com Washington no centro, algo que terá repercussões diplomáticas e geopolíticas profundas, especialmente se a prática acompanhar a palavra.































