Imagine a terapia intensiva como um avião que corta a noite: cada decisão é uma correção de rota que pode salvar vidas. Há 30 anos, nasceu um projeto italiano que passou de um simples radar individual a uma rede que permite a todos os pilotos ajustar suas rotas em tempo real. Esse é o percurso do MargheritaTre, a cartella clinica elettronica concebida pelo GiViTI (Gruppo Italiano per la Valutazione degli Interventi in Terapia Intensiva) para transformar as “minas de dados” geradas no cuidado intensivo em conhecimento aplicável à prática clínica e à melhoria da qualidade.
Os primeiros três decênios do projeto foram comemorados em um encontro no auditório Moscati do Ospedale Madonna delle Grazie, em Matera. O evento foi organizado pela ASM Basilicata em colaboração com o GiViTI e o Istituto di Ricerche Farmacologiche Mario Negri IRCCS, reunindo especialistas, gestores e representantes da sociedade civil. Sob a coordenação dos doutores Franco Maria Romito e Marco Tavola, discutiu-se como traduzir a informação clínica cotidiana em melhoria contínua da segurança e da qualidade assistencial.
O que chama atenção no percurso do MargheritaTre é a forma como um instrumento tecnológico se tornou também um elo humano: mais do que arquivos eletrônicos, essas ferramentas capturam o pulso do serviço — a respiração da unidade, o tempo interno do corpo institucional — e permitem que decisões locais sejam iluminadas pelo conjunto das experiências. Em setores tão complexos e dispendiosos como as unidades de terapia intensiva, otimizar processos e resultados nasce tanto da técnica quanto da partilha de saberes.
Um elemento decisivo para levar o projeto a Matera foi o apoio da sociedade civil. A implementação local do MargheritaTre foi financiada exclusivamente pela Associação Gianfranco Lupo “Un sorriso alla vita” Onlus, que contribuiu com mais de 62.500 euros. Michele Lupo, presidente da associação, lembrou que a pesquisa e a assistência precisam caminhar junto às famílias: “Nossa missão é promover consciência e participação, construindo uma ponte de confiança entre as famílias e os percursos de cuidado”.
O diretor-geral da ASM Basilicata, Maurizio Nunzio Cesare Friolo, acolheu o público destacando que os esforços da empresa de saúde estão concentrados na qualidade e na segurança. Para ele, transformar conhecimento científico em práticas diárias é um trabalho de colheita lenta: semear protocolos, acompanhar resultados, podar o que não dá frutos e regar o que melhora a vida dos pacientes.
Ao longo de trinta anos, o MargheritaTre consolidou-se como um exemplo de como a coleta sistemática de dados e a integração entre assistência e pesquisa podem reduzir variabilidade, aumentar eficiência e orientar políticas. Antes mesmo da explosão das discussões sobre inteligência artificial, essa experiência mostra que a base é sempre a qualidade da informação: dados bem organizados são o terreno fértil onde crescem intervenções mais seguras e humanas.
Para os que vivem o dia a dia das terapias intensivas, o projeto é também um espelho — em que cada registro ajuda a ver melhor o outro, e onde a prática individual ganha ecos e correções vindas da experiência coletiva. É uma lição sobre como tecnologia e afetividade podem caminhar juntas: o monitor que pisca não é apenas um sinal técnico, é a voz de uma comunidade que cuida.

























