Em reação inicial às notícias sobre o ataque dos Estados Unidos em Caracas, a primeira‑ministra Giorgia Meloni adotou um tom contido, priorizando a proteção dos cidadãos italianos e a coordenação com o governo. Segundo interlocutores próximos, a chefe do Executivo tem acompanhado a situação de perto e mantém contactos contínuos com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, em série de reuniões e briefings ao longo do dia.
Na avaliação pública que fez em seguida ao esclarecimento do presidente Donald Trump, a líder italiana qualificou a ação norte‑americana como legítima, por se tratar — nas palavras que circulam dentro de seu círculo — de um “intervento di natura difensiva” diante de uma ameaça híbrida à segurança nacional dos Estados Unidos. Em sua leitura, regimes como o de Nicolás Maduro constituem, ou abrigam, entidades estatais que alimentam e favorecem o narcotráfico, o que justifica uma resposta voltada à neutralização desse risco.
Meloni evitou, porém, uma adesão retórica sem matizes: reiterou que “a ação militar externa não é a via preferível” para derrubar regimes autoritários, mas disse entender que, se a intervenção criar condições para uma “transição democrática” — objetivo que Roma afirma perseguir há anos —, a iniciativa pode ser vista com bons olhos. A postura da premiê reflete também o posicionamento de parte do seu partido, Fratelli d’Italia, que lembra que o governo Maduro não foi reconhecido por Roma nem por larga parte da comunidade internacional.
As críticas não tardaram do outro lado do espectro: forças de oposição na Itália e governos como os da Espanha e da França classificaram a operação americana como possível violação do direito internacional. Meloni, numa leitura prática e orientada para resultados, não entrou nesse debate jurídico‑pontual na sua declaração pública imediata, preferindo sublinhar a salvaguarda dos interesses e da integridade dos italianos que vivem na Venezuela — estimados em várias dezenas de milhares — e a necessidade de monitorar consequências humanitárias e diplomáticas.
Nos contatos com Tajani, segundo fontes governamentais, foram avaliadas medidas consulares de emergência e rotas de evacuação caso a situação de segurança nas principais cidades venezuelanas se deteriore. A prioridade citada pelo gabinete foi a criação de “um corredor seguro” para cidadãos vulneráveis e a manutenção de linhas abertas com missões diplomáticas de aliados europeus, reforçando a ideia de construir uma “ponte entre nações” para proteger pessoas e direitos.
Analistas próximos ao governo interpretam a fala de Meloni como uma tentativa de equilibrar dois alicerces: defender a ação contra o crime organizado e o narcotráfico, sem, ao mesmo tempo, romantizar a intervenção militar como solução definitiva. Essa posição realista, marcada por uma linguagem de verificação e contenção, busca reduzir riscos para os italianos e preservar canais diplomáticos que possam contribuir para uma transição política futura na Venezuela.
Em resumo, a premiê coloca-se como observadora ativa: aceita o peso da caneta quando se trata de decisões políticas, mas também aponta a importância de medidas concretas que resguardem cidadãos e promovam condições para a restauração de instituições democráticas.































