Marco Severini — A notícia de que a francesa Ynsect foi colocada em liquidazione pelo Tribunal Comercial de Evry, em 1º de dezembro, representa muito mais do que o fracasso de uma start-up ambiciosa: é um movimento decisivo no tabuleiro da insetticoltura industrial e um alerta severo sobre a gestão de capitais públicos e privados em projetos de alta exposição ideológica.
O projeto, conhecido pelo nome comercial Sprynge e pela unidade produtiva em Poulainville, prometia transformar calor residual de plantas de biogás em um sistema integrado para converter resíduos orgânicos em proteínas e lipídios de alto valor. A lógica básica parecia irrepreensível: plantas de biogás dispõem de calor em excesso; insetos são homeotérmicos e exigem calor externo; resíduos agrícolas poderiam servir de alimento. Mas, como em qualquer abertura de partida bem calculada, a teoria encontrou tabuleiro e adversário — e perdeu.
Problemas cruciais emergiram em dois eixos. Primeiro, a incoerência regulatória: a União Europeia incentiva a economia circolare e práticas sustentáveis, ao mesmo tempo em que trata como tabu o uso de numerosos fluxos classificados como “resíduos” para alimentação animal ou humana. Essa contradição jurídica reduziu de forma prática a disponibilidade de matéria-prima barata e segura para grandes instalações.
Segundo, a avaliação de mercado e de escala. Como assinalou claramente o pioneiro italiano do setor, Federico Frascari, a prosperidade da criação de insetos se encontra, em regra, em empreendimentos de pequena escala — nichos alimentares, aplicações industriais limitadas ou mercados como a pesca desportiva, onde a venda de larvas pode gerar margens superiores. A transformação em indústria pesada exigia premissas econômicas e logísticas que se revelaram frágeis.
Mesmo sob a direção do ex-diretor-geral da Engie, o indiano Shankar Krishnamoorthy, e após captar cerca de 372 milhões de dólares em investimentos — incluindo maior participação de instituições como a Bpifrance — o empreendimento sucumbiu. O Tribunal considerou que não havia garantias financeiras suficientes para a continuidade, determinando a liquidação e deixando cerca de 150 operários sem emprego. Além disso, o projeto contou com subsídios locais na ordem de 770 mil euros da área metropolitana de Amiens, sinais claros de um empuxo público que não foi acompanhado por viabilidade sustentável.
O impacto extrapola o microcosmo da Ynsect. Para o tecido de start-ups europeias, esse episódio altera o equilibro de risco percebido pelos investidores: fundos públicos e bancos de desenvolvimento, ao assumirem papéis de alavanca para “projetos faraônicos”, podem criar distorções de mercado e falsas expectativas de escalabilidade. A tectônica de poder entre capital público e privado tende a redesenhar fronteiras invisíveis: quem assume o risco, quem arca com o prejuízo?
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, a lição é dupla. Por um lado, a Europa precisa de inovação agritech e de soluções que reduzam emissões e promovam a sustentabilidade. Por outro, há que se evitar o impulso de transformar a agenda verde em religião de Estado, financiando em grande escala empreendimentos cujo modelo econômico ainda não sobrevive ao teste da prática. Trata-se de alinhar intenção e realidade — alicerces frágeis da diplomacia econômica podem gerar instabilidade industrial doméstica e choques nos mercados de investimento.
No fim, a história da Ynsect é uma lição de Realpolitik aplicada ao ecossistema da inovação: o peixe que morde a isca nem sempre é o mesmo que paga a conta. Para evitar novos episódios semelhantes, recomenda-se uma abordagem de xadrez — movimentos mais cautelosos, linhas de financiamento escalonadas e critérios regulatórios claros que convidem à industrialização apenas quando a cadeia de valor estiver comprovada.































