Depois de cinco temporadas que acompanharam a transformação de Hawkins em palco de horrores, mistérios e laços que resistem, o final de Stranger Things deixou uma sensação amarga para quem acompanhou a jornada desde a primeira cena: a trajetória de Will Byers, o personagem cujo sumiço deu início a tudo, terminou de forma _subaproveitada_.
É intrigante e um pouco cruel: a série que nasceu da ausência de Will aquela primeira noite em que ele desaparece, desencadeando a busca que dá nome à narrativa fecha seu ciclo sem oferecer ao personagem o fechamento emocional que sua construção dramática parecia impor. Ao longo das temporadas, Will foi tratado como o coração mais frágil da história: violado primeiro corpo e mente pelo Sottosopra (o Mundo Invertido), marcado de maneira mais profunda pelo trauma, e submetido a um processo de amadurecimento que sempre passou por dores, silêncios e escolhas adiadas. Não é pouca coisa.
Dois eixos narrativos sustentaram sua presença: o trauma persistente e o enigmático laço com Vecna, e o lento caminho rumo à aceitação da própria identidade. Estes dois fios, alinhavados com cuidado ao longo das temporadas, criavam a expectativa de um clímax libertador. Ao invés disso, a quinta temporada preferiu não dar um salto definitivo: ofereceu breves diálogos, insinuações e um fechamento que pareceu mais apressado do que conclusivo.
O que isso significa, na prática? Primeiro: a relação de Will com Mike construída com camadas de afeto, tensão e subtexto ao longo dos anos ganha um tratamento final que se move entre o ambiguo e o sucinto. Depois de temporadas em que os olhares, as conversas interrompidas e os pequenos gestos sugeriam algo maior, a resolução é um aceno rápido, uma promessa vaga de continuidade que não enfrenta claramente os sentimentos acumulados. Para uma audiência que investiu horas explorando cada troca entre os dois, essa escolha soou como um atalho.
Não se trata de esperar por um “final feliz” no molde tradicional. Trata-se de pedir uma recompensa emocional coerente com todo o processo: depois de tanto silêncio, abandono e danos, Will merecia uma trilha que desenhasse um novo começo, ou ao menos um marco que permitisse ao público testemunhar uma virada real. Ao relegá-lo a um lugar lateral no clímax coletivo, Stranger Things entregou uma mensagem incômoda: sua felicidade pode ser sugerida, mas não precisa ser mostrada.
Enquanto isso, outros personagens tiveram epílogos mais definidos. A série tomou tempo para concluir arcos afetivos, rir e chorar com despedidas explícitas, e até construir futuros plausíveis para muitos do elenco. Essa generosidade narrativa acentuou o contraste: por que Will, cuja dor é tão central, foi esquecido na hora decisiva?
Parte da resposta pode estar na própria estrutura de encerramento: com tantos pontos a amarrar conflitos com Vecna, a conclusão de jornadas pessoais, a escala épica dos sacrifícios e batalhas escolhas precisaram ser feitas. Nem todos os arcos poderiam receber a mesma atenção. Ainda assim, quando uma série tem durante anos um personagem com simbolismo tão grande, relegá-lo ao plano das sugestões fere a promessa emocional construída.
O tratamento de Will também repercute fora da narrativa: nas redes sociais, fãs expressaram frustração e decepção. Memes, threads no Twitter (X) e postagens no Instagram mostraram como o público queria mais do que um aceno. Muitos ressaltaram que a história de Will ecoa com experiências reais de quem viveu exclusão, dúvida e uma busca por identidade em ambientes hostis; a ausência de um desfecho claro não é apenas uma falha de roteiro, mas um esquecimento simbólico.
Há ainda a dimensão cultural: em um momento em que produções buscam representar com cuidado jornadas LGBTQIA+ e narrativas de trauma, a escolha de deixar em aberto o destino afetivo de um personagem tão sugestivo ignora uma oportunidade de diálogo maior. A série teve ocasiões anteriores para explorar isso com honestidade, e a decisão de não finalizar com clareza soa como se tivesse medo de assumir uma posição narrativa mais direta.
Para além do que foi omitido, é interessante observar o que funcionou. A quinta temporada não ignora Will: há cenas que lembram o espectador do dano que ele carregou, monólogos e momentos de ternura que reafirmam seu lugar no grupo. A amizade, a história em comum e a empatia que o cercam continuam presentes — e são forças que a série celebra até o fim. O problema é que celebrar não basta quando o personagem em questão pedia concretude.
O conflito entre o que a série mostra e o que deixa implícito também abre espaço para leituras alternativas. Talvez os roteiristas quisessem preservar um final mais ambíguo por respeito à complexidade do crescimento pessoal: nem todas as feridas cicatrizam com uma cena de encerramento; às vezes, a vida segue com nuances e incertezas. Essa abordagem tem mérito — na vida real, desfechos raramente são limpos, mas a frustração do público nasce porque, na linguagem da ficção, uma cena bem escrita pode oferecer essa complexidade sem transformar o arco em vazio.
Também vale lembrar que Stranger Things sempre caminhou entre homenagens ao cinema oitentista e um drama adolescente contemporâneo. A série, nesse sentido, possui uma dívida com sua própria coerência tonal: quando aposta na emoção direta, o público espera que esses investimentos retornem em algo palpável. Não fazê-lo é perder um pouco do capital emocional acumulado.
Como teria sido um final mais satisfatório para Will? Existem caminhos plausíveis que não quebrariam a lógica do roteiro. Um diálogo franco com Mike, por exemplo uma conversa sem metáforas, em que ambos nomeassem o que sentem teria proporcionado fechamento sem transformar a série em algo que ela não é. Outra possibilidade seria ver Will iniciando um novo projeto de vida, um movimento que sinalizasse autonomia: mudou de cidade, entrou num curso de arte, começou terapia, ou encontrou um grupo de apoio. Esses gestos cotidianos podem ser igualmente poderosos.
O uso de símbolos também teria sido eficiente: um objeto que recorrente ao longo das temporadas poderia ganhar um desfecho que representasse libertação. Ou então uma cena íntima, apenas entre ele e outro personagem que o escutasse de fato, teria bastado para traduzir o fim do ciclo de silêncio que marcou sua trajetória.
Fãs e críticos também sugeriram alternativas mais ousadas: uma cena em que Will confronta Vecna de forma simbólica, não necessariamente com violência física, mas com resistência emocional, mostrando que o conflito interior foi enfrentado de forma visível. Isso teria dado corpo ao fio narrativo que ligou nome e destino desde a estreia.
Além das escolhas narrativas, a reação ao fim de Will também aponta para uma discussão mais ampla sobre representatividade e responsabilidade criativa. Quando uma obra constrói personagens que ressoam com grupos marginalizados, existe uma expectativa de cuidado extra. O abandono de um fechamento claro pode ser visto como uma quebra dessa responsabilidade, sobretudo num universo tão influente quanto o de Stranger Things.
Claro que nem tudo precisa estar escrito de forma literal. A sugestão pode ser poderosa. Mas a diferença entre sugestão e omissão é que a primeira entrega pistas suficientes para que o público compreenda e sinta que o personagem foi honrado; a segunda deixa a sensação de esquecimento.
Para os criadores, a lição talvez seja mais prática do que estética: ao encerrar uma série que passou tanto tempo nos corações e timelines dos fãs, é fundamental respeitar o equilíbrio entre ambiguidade e recompensa emocional. A plateia aceita perguntas sem resposta quando recebe também pequenos presentes que garantem que o personagem teve sua chance. No caso de Will, a falta desse presente pesou.
Por fim, resta ao público a capacidade de reconstruir possíveis finais nas redes, em fanfics, vídeos e ilustrações — espaços onde a frustração se transforma em criatividade. A cultura de fãs, afinal, sempre encontrou maneiras de preencher lacunas deixadas por narrativas imperfeitas. Ainda assim, a memória desse desfecho ficará: um lembrete de que, mesmo em séries que celebram a amizade e o cuidado, escolhas de roteiro podem ferir a expectativa do público.
Stranger Things encerra seu épico com grandezas e falhas. A série honra a maioria dos seus personagens com epílogos que fecham arcos e propõem futuros plausíveis. Mas, no caso de Will Byers, a produção abandona a promessa emocional que ela mesma criou. E essa omissão mais do que a ausência de um final feliz é o que mais pesa: não ver, de forma clara, a recompensa ao personagem que iniciou tudo é uma oportunidade perdida que será discutida por muito tempo nas timelines e nas rodas de fã-clubes.






















